Reportagens

Entrevista: “Aprender a gramática é um caminho para a compreensão de nós mesmos e do mundo”

A 1000 na Redação publicou recentemente um post com indicações de livros que todo aluno que está se preparando para o ENEM e vestibulares precisa ter ao lado na hora de treinar sua redação.

viva-a-lingua-brasileiraUm dos livros indicados é o “Viva a Língua Brasileira!”, de Sérgio Rodrigues. O autor escrevia o blog Sobre Palavras, no site da Veja, para tratar da língua de forma leve e bem humorada – pode clicar, ele ainda está no ar!

Esse blog foi uma espécie de embrião do livro, que responde dúvidas sobre o português. Não pense que você terá pela frente um dicionário ou uma gramática. Pelo contrário.

Nesta entrevista que a 1000 na Redação fez com o autor, ele explica qual foi sua intenção ao pensar o livro com uma abordagem mais leve e prazerosa.

Atualmente, Rodrigues escreve uma coluna na “Folha”, publicada às quintas-feiras, também relacionada ao idioma. A leitura é recomendadíssima.

Agora, acompanhe a entrevista com Sérgio Rodrigues.

O escritor Sérgio Rodrigues | Foto: Bel Pedrosa
O escritor Sérgio Rodrigues | Fotos: Bel Pedrosa

O livro tem um design que foge da imagem de um dicionário. Da mesma forma, os textos são mais livres, como uma conversa. Qual era sua intenção ao planejar um livro com esse conceito?
A cara do “Viva a Língua Brasileira!” traduz a abordagem que eu sempre busquei em 15 anos de colunas sobre a língua na imprensa e na internet. Língua é vida, uma coisa prazerosa e acessível, o que não significa abrir mão do rigor. Aprender gramática, pensar sobre as palavras e nosso modo de falar, tudo isso é fascinante. Além de divertido, é um caminho para a compreensão de nós mesmos e do mundo. Em geral, a língua é associada a dever escolar, a chatice, mas só é chata se a abordagem for chata. O projeto gráfico de Debs Bianchi e as ilustrações de Francisco Horta Maranhão são brilhantes e pegam muito bem esse espírito. Não é um dicionário. É um livro para folhear a esmo, rir, aprender, se surpreender e pensar.

Como quebrar a intolerância com a língua?
São muitas as intolerâncias com a língua, mas todas elas – como as intolerâncias de modo geral, inclusive políticas – se curam com conhecimento. Toda intolerância é uma forma de obscurantismo, de ignorância. Tanto quem é ultraconservador com a língua quanto quem quer sair quebrando tudo carece de uma visão que vá dois palmos adiante do nariz. Quando se estuda um pouco de línguística e de gramática histórica, é impossível ser purista e ver em qualquer novidade bobinha o sinal do fim do mundo, porque aprendemos que toda língua viva muda sem parar. Mas também é impossível abraçar uma visão de vale-tudo, de bota-abaixo, porque é evidente que existe uma lógica interna rigorosa nessas mudanças.

“Língua é vida, uma coisa prazerosa e acessível, o que não significa abrir mão do rigor”

Li uma entrevista sua em que você critica o ensino da língua no Brasil e a escolha dos livros estudados. Qual a saída para resolver essas duas questões?
A crise da educação brasileira só vai ser resolvida no momento em que houver uma baita valorização dos professores, claro que acompanhada de uma melhor qualificação. Eles precisam ganhar muito, mas muito mais do que hoje, precisam ser vistos como profissionais preciosos, habitar outra dimensão social. E não digo isso por interesse próprio, pois não sou e nunca fui professor, sou um escritor que estuda a língua por paixão. Isso vale para o ensino como um todo. No caso da língua, precisamos de uma política linguística que defina e abrace o português brasileiro, que sistematize e ensine tanto a diversidade quanto a norma culta que é praticada aqui – e não em Portugal. Isso vai contribuir para acabar com o mito brasileiríssimo de que o português é uma língua muito difícil, quase impossível. Os alunos o veem assim porque o que se ensina é em grande parte alienígena, defasado e baseado em pegadinhas ridículas. Quanto à leitura, acho fundamental levar em conta que, numa fase de formação de gosto e hábito, os alunos devem ter antes de mais nada uma experiência de prazer. Obrigar hoje um menino de 13 anos a ler José de Alencar é matar o leitor potencial que há nele, é salgar a terra.

“Obrigar hoje um menino de 13 anos a ler José de Alencar é matar o leitor potencial que há nele, é salgar a terra”

Se a escola é formadora de não leitores (e pesquisas mostram o pouco que o brasileiro lê), como então formar esses leitores? Quais leituras você propõe?
Não existe fórmula mágica, mesmo porque o percurso de leitura de cada um é radicalmente individual, uma jornada de autoconhecimento. No meu trabalho como jornalista e crítico, sempre procurei falar de livros de uma forma que converse com o chamado leitor comum, mostrando que literatura não é bicho-papão. Até o “Ulisses”, do James Joyce, pode e deve ser lido com e por prazer – embora, claro, tenha um nível de exigência que o torna inacessível ao leitor mais ingênuo. O que acontece é que gosto demais de livros e de literatura para tratá-los com reverência excessiva, para pô-los num pedestal. Infelizmente, nem todo mundo que se ocupa profissionalmente dessas questões pensa assim. Isso acaba fortalecendo um preconceito contra a cultura letrada que é enraizado na cultura brasileira. A maior parte do país é antiintelectual até a medula.

Você é crítico da padronização do jornalismo da Globo, como nos casos da expressão “risco de morte” e da pronúncia de Roraima. O alcance da TV mais ajuda ou prejudica o entendimento da língua no Brasil?
O rádio e depois a TV fizeram muito pela coesão linguística do Brasil, sem dúvida. Há quem considere isso um mal em si, por aplainar a diversidade, mas não penso assim. Os benefícios da relativa “unidade” me parecem claros, e além disso a diversidade é mais resistente do que se pensa, por ser enraizada na vida familiar e comunitária. O que eu combato aqui do meu canto, com meu pequeno poder de fogo, é a arrogância e o totalitarismo que podem vir nesse pacote. O caso da condenação à expressão “risco de vida” é um exemplo de apoteose da idiotice. E apagar os sotaques regionais dos repórteres de TV me parece um erro. Seria mais honesto, mais educativo e até mais bonito expor essa riqueza prosódica na tela.

Os veículos de comunicação têm seus manuais de redação, com padronizações que nem sempre correspondem à língua culta. Eles são um mal necessário para os veículos? Eles podem influenciar a língua?
Manuais de redação podem ser bons ou ruins, dependendo de quem os produza, mas como jornalista entendo que sejam necessários como forma de dar consistência e identidade aos veículos, além de minimizar erros. Pelo menos era assim. A crise profunda da imprensa, provocada pela revolução digital, vai tornando esse debate meio obsoleto. Na internet, mesmo em portais ligados a grandes grupos de comunicação, não parece haver nem tempo nem disposição para a padronização.

“Sempre procurei falar de livros de uma forma que converse com o leitor comum, mostrando que literatura não é bicho-papão”

Partindo da premissa que a língua vive em constante transformação, você planeja uma segunda edição ou um volume 2 de “Viva a Língua Brasileira!”?
Não é algo que esteja nos planos agora, mas pode acontecer. Os leitores estão recebendo o livro tão bem que parece natural chegar ao segundo volume em algum momento. Mesmo porque a língua é vasta o bastante para justificar muitos livros de 400 páginas.

Tem algum verbete ou expressão que você gostaria de incluir no livro agora, mas que na época do fechamento da edição ainda não estava em discussão?
Muitos. Por exemplo, hoje eu incluiria o verbete “empoderamento” no capítulo “Palavras emergentes”. E no capítulo “Cuidado com os modismos!” não poderia faltar uma croniquinha sobre aquela horrível imitação do inglês que está se espalhando, o “ser sobre”, já reparou?  “Democracia é sobre tolerância.” Não é não! Isso é inglês e não português: “Democracy is about tolerance”. Aqui dizemos que a democracia tem a ver com a tolerância.

Como você sugere que o aluno que está estudando para o Enem e vestibulares use seu livro?
Sugiro que quando ele se cansar daquelas gramáticas e apostilas obrigatórias, quando estiver de saco bem cheio de tudo, abra o “Viva a Língua Brasileira!” como quem abre um gibi ou liga um videogame. Pensando apenas em relaxar. Acho que vai se surpreender com o quanto é possível aprender quando a gente se diverte.

*****

E aí, gostou da conversa? A 1000 na Redação usa o “Viva a Língua Brasileira!” e sugere aos seus alunos que também o façam. Só vai ajudar. Aproveite e compartilhe o post com seus amigos!

Viva a Língua Brasileira!

  • Editora: Companhia das Letras
  • Preço do exemplar novo: R$ 49,90
  • Preço na Estante Virtual: R$ 36,90 a R$ 49,90
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